O mundo do design vive um momento paradoxal. Por um lado, nunca foi tão fácil reconhecer um produto “bem desenhado”: linhas minimalistas, alumínio usinado, cantos arredondados e interfaces limpas. Por outro, essa mesma estética, que um dia foi o DNA exclusivo de uma gigante da tecnologia, parece estar se espalhando como um vírus pelo mercado de luxo.
O lançamento da Ferrari Luce
O primeiro carro 100% elétrico da marca italiana, está gerando burburinho não só no mundo automotivo, mas também no design industrial. O destaque? O interior e a interface foram desenvolvidos por Jony Ive e Marc Newson, através do estúdio LoveFrom. O resultado é uma cabine que mistura herança ferrarista com a linguagem minimalista, tátil e premium que Ive consagrou na Apple: muito alumínio usinado, vidro, controles físicos intuitivos e uma experiência de direção que parece “pensada como um iPhone, mas para pilotar”.


É simbólico: a Ferrari, ícone de luxo e performance, recorre ao ex-designer chefe da Apple para ajudar na transição para a era elétrica. Mas isso levanta uma questão maior: a estética que Ive criou está se tornando tão dominante que começa a diluir a própria identidade da Apple?
Quem é Jony Ive e por que ele ainda define o design moderno?
Jonathan Ive (Sir Jony Ive) entrou na Apple em 1992, quando a empresa estava à beira da falência. Sua grande virada veio em 1997, com o retorno de Steve Jobs: o iMac G3 translúcido e colorido salvou a companhia e inaugurou a era do design como diferencial estratégico.
Destaques de sua trajetória na Apple:
- iMac (1998) → Revitalizou a marca com transparência e cor.
- iPod (2001) → Minimalismo branco que definiu a era digital portátil.
- iPhone (2007) → Revolucionou não só hardware, mas interação humana com tecnologia.
- MacBook Pro unibody, Apple Watch, AirPods e a linguagem de materiais (alumínio, vidro Gorilla, cantos arredondados precisos).
Ive saiu da Apple em 2019 para fundar o LoveFrom, um “creative collective” com Marc Newson, em San Francisco (e estúdio em Londres). A Apple foi cliente inicial até 2022.
Aqui uma visão rápida de sua influência:
| Período | Contribuição Principal | Impacto |
|---|---|---|
| 1997–2000 | iMac G3 e Power Mac G4 | Salvou visualmente a Apple |
| 2001–2007 | iPod e iPhone | Criou linguagem de produto de luxo acessível |
| 2008–2019 | Unibody, Apple Watch, novos MacBooks | Estética premium minimalista global |
| 2019–hoje | LoveFrom + colaborações (Ferrari, OpenAI) | Design de Ive agora molda outras indústrias |
LoveFrom: o novo epicentro do design “Ive-style”
Fundado em 2019, o LoveFrom é seletivo e discreto. Clientes incluem Airbnb (redesign de produtos e serviços), Moncler (casaco com botão magnético inovador), Linn (toca-discos de luxo) e agora a Ferrari.

Em 2025, a OpenAI adquiriu a io Products (startup de hardware de Ive) por cerca de US$ 6,5 bilhões. A LoveFrom permaneceu independente, mas Ive e sua equipe assumiram responsabilidades criativas profundas na OpenAI, desenvolvendo uma nova família de produtos de hardware para IA — possivelmente dispositivos “sem tela” ou “companheiros” de IA.
Marcas de tecnologia e luxo estão contratando o LoveFrom ou designers formados na escola Ive. O resultado? Produtos cada vez mais parecidos: cantos suaves, materiais frios e premium, interfaces limpas e intuitivas. O “jeito Apple” saiu da Apple.
Perdas recentes no design da Apple
Desde a saída de Ive, a Apple perdeu boa parte do time original de design. Muitos foram para o LoveFrom.
Mais recentemente (fim de 2025), houve mudança importante na liderança de interface: o VP de Human Interface Design (responsável pelo polêmico “Liquid Glass” do iOS 26, criticado por legibilidade) deixou a empresa rumo à Meta. Em seu lugar, assumiu Stephen Lemay, designer veterano da casa, respeitado internamente por atenção aos detalhes e craftsmanship — visto por muitos como um possível “reset” positivo.
Além disso, o COO Jeff Williams (que supervisionava design) se aposentou, e o time agora reporta diretamente a Tim Cook.
Tabela de mudanças recentes na liderança de design da Apple:
| Ano | Evento | Impacto |
|---|---|---|
| 2019 | Saída de Jony Ive | Fim da era “Jobs + Ive” |
| 2024–2025 | Múltiplas saídas de designers originais | Quase todo o time Ive saiu |
| 2025 | Saída do VP de Human Interface para Meta | “Liquid Glass” controverso no iOS 26 |
| 2025 | Stephen Lemay assume UI | Possível retorno a detalhes e usabilidade |
| 2025 | Jeff Williams se aposenta | Design agora direto com Tim Cook |
A Apple está se preparando para a crise de identidade?
A empresa parece consciente do risco. Nos últimos keynotes, reforçou a mensagem de “retorno às raízes do design”. Há contratações estratégicas, promoções internas (como a de Lemay) e maior supervisão direta de Cook.
Mudanças concretas pós-Ive já apareceram: retorno de portas nos MacBooks, teclados mais robustos (fim da borboleta), experimentações em materiais e, em alguns casos, maior ousadia em funcionalidades.
Ainda assim, a estética geral permanece muito fiel ao legado de Ive. Enquanto isso, concorrentes e marcas de luxo (como a própria Ferrari) adotam a mesma linguagem.
Tudo vai ficar igual? E o que pode romper a mesmice?
Se continuar assim, corremos o risco de um mercado visualmente homogêneo: carros, smartphones, relógios, fones e até casas com a mesma cara “alumínio + vidro + minimalismo”. O design by Apple vira commodity de luxo.
O que pode quebrar isso?
- Os novos dispositivos de IA que Ive está desenvolvendo com OpenAI (possivelmente interfaces mais emocionais, menos dependentes de telas).
- Retorno a controles físicos e táteis (como Ive colocou na Ferrari Luce, contrariando a onda total de touchscreens).
- Foco maior em significado cultural e emocional, em vez de apenas minimalismo funcional.
- A própria Apple ousar mais — talvez com o novo time de UI sob Lemay ou experimentos em iOS futuros.
E você, o que acha? A identidade estética da Apple está em risco de se perder na própria popularidade, ou estamos vendo a evolução natural de um design tão poderoso que se tornou o padrão da indústria? O “jeito Ive” ainda é diferencial quando todo mundo copia, ou chegou a hora de a Apple reinventar sua própria linguagem?
A Ferrari Luce ilumina (literalmente) esse debate. O futuro dirá se a luz de Ive continua brilhando mais forte fora da Apple do que dentro dela.


